Como a oposição parece achar que não se bate em mulher nem com palavras, Dilma inaugura até casas sem água e sem luz

Publicado sexta-feira,18 de outubro de 2013, matéria sobre POL√ćTICA. Acompanhe mais informações, assine: RSS 2.0. Obrigado por acessar a OSCIP BRASIL. E-mail: oscip@brasil.dx.am

Confrontados com a not√≠cia de que Dilma Rousseff anda enxergando um cachorro oculto atr√°s de cada crian√ßa brasileira, os craques do duelo ret√≥rico que desapareceram da paisagem pol√≠tica teriam demolido a usina de maluquices com meia d√ļzia de frases de grosso calibre. Um Carlos Lacerda, por exemplo, provavelmente sugeriria que a chefe de governo dedicasse ao exame dos incont√°veis problemas reais o tempo que desperdi√ßa em vis√Ķes medi√ļnicas. Um J√Ęnio Quadros talvez perguntasse se os c√£es tamb√©m s√£o distribu√≠dos de acordo com as classes sociais ou se a presidente j√° viu um galgo afeg√£o seguindo um pequeno favelado (ou vira-latas escoltando a filharada da elite golpista).

Para sorte de Dilma, a Era da Mediocridade transformou numa esp√©cie em extin√ß√£o a tribo dos bons de briga, √°geis no racioc√≠nio e r√°pidos no gatilho ‚ĒÄ o antagonista mal acabara de disparar uma bala b√™bada e l√° vinha o revide imediato, certeiro, letal. Em vez de Lacerda, J√Ęnio e tantos outros que nunca negavam fogo, que jamais deixavam de apanhar a luva atirada pelo desafiante, o neur√īnio solit√°rio lida com advers√°rios exemplarmente gentis, que insistem em valsar com quem s√≥ dan√ßa quadrilha. Previsivelmente, os candidatos √† Presid√™ncia n√£o abriram a boca sobre a hist√≥ria do cachorro oculto.

Poupada de merecidíssimas lambadas, é natural que Dilma tenha desembarcado em Itajubá, dois dias depois da discurseira alucinada em Porto Alegre, tão à vontade quanto Rosemary Noronha num voo noturno do Aerolula. Caprichando na pose da supergerente que chegou de trem-bala para passear de barco nas águas já transpostas do Rio São Francisco, a candidata à reeleição inaugurou uma fábrica que não construiu, jurou em comícios disfarçados de entrevistas que não está em campanha e, antes de seguir viagem, decidiu dar conselhos aos interessados em tomar-lhe o emprego.

‚ÄúAcredito que, para as pessoas que querem concorrer ao cargo, elas t√™m de se preparar, estudar muito, ver quais s√£o os problemas do Brasil‚ÄĚ, ensinou. Um Leonel Brizola teria retrucado que, se os demais pretendentes precisam estudar para melhorar a cabe√ßa, a cabe√ßa de Dilma √© que precisa ser estudada antes que fique ainda pior. √Č coisa para uma junta de especialistas. √Č um caso cl√≠nico e tanto (e, como a ci√™ncia n√£o para de avan√ßar, pode at√© ter cura). Os l√≠deres da oposi√ß√£o oficial, sempre cavalheirescos, limitaram-se a murmurar algumas ressalvas e esquecer a provoca√ß√£o grosseira.

A falta de contragolpes vigorosos ajuda a entender o crescente atrevimento da governante à caça do segundo mandato. Nesta terça-feira, Dilma apareceu em Vitória da Conquista, na Bahia, para entregar aos eleitores 1.740 casas populares. O lote incluiu mais de mil moradias sem água e sem luz. Até agora, os adversários não pareceram indignados com outro monumento ao cinismo. Devem achar que não se deve bater em mulher nem com palavras. Podem acabar apanhando do vasto exército de eleitores que desistiu de acompanhar generais que não combatem.

Por Augusto Nunes

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