Disseram que s√£o ativistas de sof√° e que precisavam sair da frente do computador

Publicado segunda-feira,8 de julho de 2013, matéria sobre BRASIL. Acompanhe mais informações, assine: RSS 2.0. Obrigado por acessar a OSCIP BRASIL. E-mail: oscip@brasil.dx.am

Milhares de pessoas nas ruas, mais de 600 cidades em movimento, um protesto por hora: o Brasil foi sacudido pelo deslocamento de uma placa tect√īnica. Sob muitos aspectos, n√£o seremos mais os mesmos.

Confesso que desejava ver manifesta√ß√Ķes de rua. Acompanhei algumas nos √ļltimos dois anos, mas eram min√ļsculas e ignoradas. Sabia que o projeto do PT estava em decl√≠nio. Para mim, o partido, como energia renovadora, morreu nos primeiros anos do s√©culo. Pensava, no entanto, que s√≥ em 2018 a Na√ß√£o se daria conta disso. O vigor e a diversidade das manifesta√ß√Ķes, por√©m, superaram minhas previs√Ķes.

Fixei-me no combate √†s fanfarronices do PT e n√£o retomei os temas que desenvolvi em 2012. Um deles era a internet, uma revolu√ß√£o na minha atividade de jornalista. Por que n√£o mudaria a pol√≠tica? Muitas pessoas que desprezam as peti√ß√Ķes online disseram que seus autores s√£o ativistas de sof√°, precisavam sair da frente do computador. N√£o perceberam que tamb√©m os computadores trocaram o sof√° pelas ruas. Em 2004, por mensagens nos celulares milhares de espanh√≥is se mobilizaram e mudaram o rumo das elei√ß√Ķes.

Todos nos tornamos capazes de relatar e enviar imagens. Mas algumas empresas podem investir em obter e conferir os dados, deslocar-se para os grandes eventos. A separa√ß√£o entre imprensa e redes sociais √© relativa, porque uma metaboliza o conte√ļdo das outras. Reproduzido pela imprensa, tudo o que os pol√≠ticos fizeram ‚Äď e n√£o foi pouco ‚Äď acabou despertando a f√ļria de milh√Ķes de brasileiros, que se tornaram mais poderosos com a revolu√ß√£o tecnol√≥gica.

E agora? Dilma foi tragada pela crise. As dificuldades econ√īmicas tendem a se agravar e o mundo encantado do ‚Äúnunca antes nesse pa√≠s‚ÄĚ foi para o espa√ßo, seus marqueteiros est√£o fazendo pesquisas qualitativas na camada de oz√īnio.

Estamos navegando na neblina. Mas alguns contornos, para mim, est√£o n√≠tidos. Na luta contra a corrup√ß√£o, n√£o √© necess√°rio acrescentar um adjetivo na lei: crime hediondo. Isso me faz lembrar os trens italianos, que n√£o chegavam na hora, mas iam mudando o adjetivo: r√°pido, muito r√°pido, rapid√≠ssimo. O melhor instrumento √© a aplica√ß√£o real da lei acesso √†s informa√ß√Ķes oficiais. Por que n√£o investir nisso? Custa menos que os milh√Ķes de cada grande esc√Ęndalo na era do ‚Äúnunca antes‚ÄĚ. As grandes demandas sociais poderiam ser parcialmente satisfeitas se o governo cortasse seus gastos, reduzisse minist√©rios, cargos de confian√ßa, gastos com viagens, at√© cach√™ do cabeleireiro.

Em 2012 defendi a ideia de um governo inteligente, n√£o no sentido do QI de seus ministros, mas da capacidade de usar os meios tecnol√≥gicos para baratear custos e, simultaneamente, conectar-se a grande n√ļmero de pessoas. A internet n√£o √© uma panaceia, apenas um game changer: poderoso instrumento para utilizar racionalmente os recursos diante das crescentes demandas, n√£o s√≥ de melhores servi√ßos p√ļblicos, mas tamb√©m de amplia√ß√£o da democracia.

N√£o √© tarefa f√°cil. Os burocratas do PT respondem ao movimento das ruas com um plebiscito, na tentativa de dar ao processo o final empolgante de uma reuni√£o de condom√≠nio. O objetivo do PT √© controlar tudo, como j√° controla o processo pol√≠tico. Num pa√≠s onde muitos eleitores n√£o se lembram do parlamentar em quem votaram, eles querem aprofundar a dist√Ęncia por meio de lista fechada. Na verdade, o governo n√£o entendeu os novos tempos simplesmente porque sua estrutura mental n√£o o permite. √Č uma estrutura fortemente hierarquizada. Participar das redes sociais, para eles, significa pagar a um batalh√£o de idiotas para repetir slogans e escrever blogs venenosos.

Em 2010 recolhi material para demonstrar que S√©rgio Cabral contratara empresas no exterior para fingir que tinha apoio entre os internautas. Eram empresas nos EUA e o texto mal traduzido denunciava que os aplausos haviam sido escritos em ingl√™s e partiam dos mesmos lugares. Diante de um fen√īmeno t√£o rico na comunica√ß√£o humana, tudo o que buscaram foi a melhor maneira de trapacear.

Na semana passada vimos a rua onde mora Cabral, no Leblon, ser ocupada por manifestantes. Ele n√£o p√īde ir ao Antiquarius, o restaurante vizinho onde tem um babador com seu nome e o escudo do Vasco da Gama. Cabral √© o filhote querido de Lula, express√£o local da megalomania, safadeza e dissolu√ß√£o da alian√ßa que governa o Pa√≠s.

Embora a constru√ß√£o do futuro seja o principal enigma no momento, √© reconfortante constatar que as mentiras foram descobertas e de s√ļbito uma nova realidade emergiu no Pa√≠s. Os quase dez anos de ex√≠lio ao menos me ensinaram, como descendente de tuaregues, a atravessar o deserto com um copo de √°gua. O o√°sis que projetei para 2018 acabou se aproximando. Miragem?

Compreendo os pessimistas que esperam algo pior. Est√£o fixados nos coelhos que os burocratas do PT podem tirar da cartola. Considero que as manifesta√ß√Ķes foram um salto de qualidade no processo democr√°tico e v√£o impulsionar mudan√ßas culturais positivas ‚Äď a desmitifica√ß√£o do futebol como √≥pio do povo, por exemplo. N√£o h√° dono da verdade dentro da neblina. Mas, para mim, nasceu uma flor no asfalto, como dizia o poeta.

O processo de redemocratiza√ß√£o, iniciado com a queda da ditadura militar, a nova Constitui√ß√£o, as elei√ß√Ķes diretas, todo esse enredo que j√° conhecemos entra em nova fase. Mas como afirmar isso, se o Congresso ainda √© presidido por Renan Calheiros e n√£o se dissipou o clima de devasta√ß√£o moral e a pilhagem promovida por PT e aliados? Esta semana o presidente da C√Ęmara, deputado Henrique Alves, levou a fam√≠lia num avi√£o da FAB ao Maracan√£, em plena crise. Fulminado pela transpar√™ncia, devolveu uma fra√ß√£o da grana.

A t√°tica √© inventar palavras m√°gicas, projetos demag√≥gicos, para segurar as ruas. Mas s√≥ esparramam gasolina, √† espera de que algu√©m grite ‚Äúfogo!‚ÄĚda pr√≥xima vez. A viol√™ncia √© sua √ļltima esperan√ßa de sobrevida. N√£o se pode cair na arapuca hist√≥rica do s√©culo passado. √Č poss√≠vel derrot√°-los com energia, paci√™ncia e at√© um certo humor.

“O sert√£o virando mar”, por Fernando Gabeira.

Artigo publicado no jornal O Estado de S√£o Paulo em 05.07.2013

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